Carlos María Galli, 07/09/2019
CELAM – REPAM, Bogotá

Este ensaio é um grui para a reflexão e diálogo sobre a proposta de uma nova estrutura episcopal – colegial e sinodal, em, desde e para a Igreja regional amazônica.
Apresento a questão no marco do próximo Sínodo (1); explico o fundamento a partir de uma renovada eclesiologia da sinodalidade (2); assumo a tradição regional da Igreja Latino-americana y caribenha contemporânea (3); imagino uma possível estrutura permanente da Igreja amazônica (4). Dado o caráter sintético do texto, não desenvolverei as questões técnicas prévias ou colaterais, nem utilizarei bibliografia eclesiológica ou canônica. Apenas citarei alguns textos teológicos e do magistério recentes.

1. A questão: uma estrutura eclesial para o rosto amazônico da Igreja?

1. Esta Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos nos interpela para encontrar novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral na Amazônia. Com esse horizonte, o Documento de Trabalho (Instrumentum Laboris) desenvolve o capítulo: Igreja com rosto amazônico e missionário (IL 107-114). Neste marco, sugiro olhar para a Igreja amazônica como “Igreja regional” e pensar sua possível configuração “sinodal” e “colegial”. Explicitar a dimensão regional e a figura sinodal pode ajudar a delinear o pano de fundo e a forma da “fisionomia da Igreja amazônica” (IL 146).
2. Deus, em Cristo, se vincula aos homens particularizados pelas “culturas próprias dos povos” (AG9) e a Igreja, Povo de Deus, se realiza concretamente em cada “grande território sociocultural” (AG, 22b). Os povos e as culturas configuram as Igrejas de um país e uma região. O componente geocultural de uma diocese ou de um agrupamento interdiocesano de Igrejas marca o seu rosto próprio. O Concílio Vaticano II afirmou o valor das diversidades culturais na Igreja (cf. SC 37-40; UR 1, 6; LG 13; AG 22; AA 19). A pluralidade de espaços culturais contribui para a pluralidade de igrejas que “falam tal língua, são tributárias de uma hierarquia cultural, de uma visão de mundo, de um passado histórico, de um substrato humano determinado” (EM, 62). O encontro do único Povo de Deus com as diferentes culturas gera “a variedade de igrejas locais” (LG 23) com suas peculiaridades teológicas, litúrgicas, espirituais, pastorais e canônicas (LG 23d, UR 4, AG 19) e cujo dinamismo “longe de ir contra a unidade, manifesta-a melhor” (OE 2).
A Igreja assume as culturas locais, nacionais ou regionais quando “a abertura para as riquezas da Igreja particular responde a uma sensibilidade especial do homem contemporâneo” (EM 62). Neste processo vai se delineando novos rostos eclesiais e itinerários pastorais comuns (IL 113-115).
3. As Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano e Caribenho são signos eloquentes de um processo sinodal e colegial que foi delineando, como diz Aparecida, “o rosto latino-americano e caribenho de nossa Igreja” (DAp 100). Os Sínodos que se realizaram nos continentes durante a preparação do Jubileu dos anos 2000, foram feitos importantes para demarcar a figura própria da Igreja Católica na escala continental na América, Europa, Ásia e Ocenaia (TMA 38; EiA 8).
4. Nosso caminhar regional está aberto a novas estruturas e processos, que podem desenvolver-se em escala regional e continental, segundo as necessidades das igrejas vizinhas y afins. Por exemplo, nas últimas décadas apostou-se no trabalho em redes das dioceses de fronteiras de distintos países, incluindo a ação pastoral social e ecológica (IL 129.f.2). Estamos chamados a pensar teológica, espiritual e canonicamente novas dinâmicas de intercâmbio sinodal intra e inter- continentais.

A novidade do Sínodo para a Amazônia nos convida a imaginar a fisionomia da Igreja nesta comunidade regional e gerar uma formação nova, inter/nacional, mas infra-continental.

2. O fundamento: a sinodalidade eclesial a nível regional

A sinodalidade eclesial

1. O Papa Francisco ensina uma renovada compreensão da sinodalidade. Em 2015, ao comemorar o 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos pelo motu próprio Apostolica Sollicitudo de São Paulo VI, afirmou: “o caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja no terceiro milênio”. Esta expressão, dita na parresia do Espírito, aprofunda seu chamado a uma conversão pastoral e missionária para comunicar a alegria do Evangelho (EG 27). O Papa convoca a viver a sinodalidade nos distintos níveis da vida na Igreja, ou seja, a nível local, regional e universal. Assim, inverte-se a ordem de referência dada nas últimas décadas, que ia do universal para o particular. No segundo âmbito regional situa instâncias sinodais intermediárias.

“o segundo nível é aquele das províncias e regiões eclesiásticas, os conselhos particulares e, de modo especial, das Conferências Episcopais. Devemos refletir para que possamos realizar ainda mais, através destes organismos, as instâncias intermediárias da colegialidade, quem sabe integrando e atualizando alguns aspectos da antiga ordem eclesiástica. O desejo do Concílio de que tais organismos contribuam para acrescentar o espírito da colegialidade episcopal ainda não se realizou plenamente. Estamos na metade do caminho, em uma parte do caminho”.

2. Em 2018 foi publicado o documento da Comissão Teológica Internacional (CTI): A sinodalidade na vida e na missão da Igreja (Sin). Tendo como ano de fundo o magistério do Papa Francisco e o desenvolvimento recente da eclesiologia católica, o documento apresenta a figura sinodal da Igreja (Sin 10). Entre todos os elementos que compõem a experiência e a noção da sinodalidade, aqui somente destaco a correlação entre o caminho, a sinodalidade e a missão do Povo de Deus.

“Sínodo é uma palavra antiga, muito venerada pela Tradição da Igreja, cujo significado se associa com os conteúdos mais profundos da Revelação. Composta pela preposição σύν, e pelo substantivo ὁδός, indica o caminho percorridos juntos pelos membros do Povo de Deus. Remete, portanto, ao Senhor Jesus que se apresenta a si mesmo como ‘o caminho, a verdade e a vida’ (Jo, 14, 6) e ao fato de que os cristãos, seus seguidores, em sua origem foram chamados ‘os discípulos do caminho’ (cfr.At 9,2; 19, 9-23; 22,4; 24, 14-22)” (Sin 3)

3. A Igreja sinodal caminha no Espírito de Cristo rumo ao Reino de Deus anunciando o Evangelho.

“Na Igreja, a sinodalidade se vive ao serviço da missão. Ecclesia peregrinans natura sua missionaria est (AG 2), ‘ela existe para evangelizar’ (EM 14). Todo o povo de Deus é sujeito do anúncio do Evangelho. Nele, todo batizado é convocado para ser protagonista da missão porque todos somos discípulos missionários. A Igreja está chamada a ativar com sinergia sinodal os ministérios e carismas presentes em sua vida, para discernir, em atitude de escuta da voz do Espírito, os caminhos da Evangelização” (Sin 53)

O documento final da Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre os jovens cita muitas vezes, de forma explícita e implícita, a partir de seu número 18, o ensino da Comissão Teológica Internacional. A primeira citação recorda que “a aposta na ação de uma Igreja sinodal é o pressuposto indispensável para um novo impulso missionário que envolva todo Povo de Deus” (Sin 9). Aquela Assembleia resume está eclesiologia pastoral nesta nova expressão: a sinodalidade missionária da Igreja.

... a nível regional

4. A instituição sinodal variou nos distintos tempos e lugares (Sin 30,35,93,100). A sinodalidade se concretiza assumindo o componente socio-cultural das igrejas locais (Sin 24,58,77). No marco da vocação sinodal do Povo de Deus, o terceiro capítulo desenvolve sobre a concreta atuação da sinodalidade considerando os sujeitos, estruturas, processos, níveis e atos sinodais.

“A dimensão sinodal da Igreja deve expressar-se mediante a realização e o governo dos processos de participação e de discernimento capazes de manifestar o dinamismo de comunhão que inspira todas as decisões eclesiais. A vida sinodal se expressa em estruturas institucionais e em processos que conduzem através de diferentes etapas – preparação, celebração, recepção – a atos sinodais nos quais a Igreja é convocada a seguir vários níveis de atuação de sua sinodalidade constitutiva (Sin 76).

5. Em consonância com a inovação de Francisco, o discurso teológico-canônico começa no plano local, segue pelo regional e culmina no plano universal (Sin 71, 77, 85, 94). A sinodalidade na Igreja particular (Sin 77-84) segue a comunhão entre Igrejas de uma região (Sin 85-93) e o conjunto da Igreja (Sin 94-102), recolhendo tradições e estruturas do Oriente e do Ocidente. Neste contexto está localizada A sinodalidade das Igrejas particulares a nível regional.

“O nível regional no exercício da sinodalidade é aquele que se dá nos reagrupamentos das Igrejas particulares presentes numa mesma região: uma Província – como acontecia principalmente nos primeiros séculos da Igreja – ou um país, um Continente ou parte dele. Trata-se de reagrupamentos ‘organicamente unidos. ‘em união de fraterna caridade para promover o bem comum’, movidos ‘pelo zelo amoroso pela missão universal’ (LG 23). As origens históricas comuns, a homogeneidade cultural, a necessidade de fazer frente aos desafios análogos na missão, se fazem presente de forma original ao Povo de Deus nas diversas culturas e nos diversos contextos. O exercício da sinodalidade neste nível promove o caminho comum das Igrejas particulares, reforça os vínculos espirituais e institucionais, favorece o intercâmbio de dons e sintoniza as opções pastorais (NMI 29). Em particular, o discernimento sinodal pode inspirar e alentar opções comuns para ‘procurar novos processos de evangelização da cultura’ (EG 69) (Sin 85).

6. Os parágrafos seguintes recordam raízes históricas e formas atuais da sinodalidade regional:

“Desde os primeiros séculos, tanto no Oriente como no Ocidente, as Igrejas fundadas por um Apóstolo ou por um de seus colaboradores, cumpriram uma tarefa específica no âmbito de sua Província ou Região, enquanto se bispo foi reconhecido respectivamente como Metropolita ou Patriarca. Isto favoreceu o nascimento de específicas estruturas sinodais. Nelas, os Patriarcas, Metropolitas e Bispos de cada Igreja são expressamente chamados a promover a sinodalidade, cujo compromisso aparece ainda mais consistente mediante a maturidade da consciência da colegialidade episcopal que deve expressar-se também a nível regional” (Sin 86).

O documento apresenta algumas estruturas sinodais e colegiais da Igreja latina:
“Na Igreja Católica de rito latino são estruturas sinodais a nível regional: os Concílios particulares provinciais e gerais, as Conferências Episcopais e os diversos reagrupamentos destas, também a nível continental; na Igreja católica de rito orientar: o Sínodo Patricarcal e o Sínodo Provincial, a Assembleia dos Hierarcas de diversas Igrejas orientais sui iuris, e o Concílio dos Patriarcas católicos do Oriente. O Papa Francisco definiu estas estruturas eclesiais como instâncias intermediárias da colegialidade y recordou o que disse o Vaticano II de “que estes organismos possam contribuir para o crescimento do espírito de colegialidade episcopal” (Sin 87).
7. A sinodalidade é a forma de caminhar em comunhão por parte de cada igreja local e por parte de distintas agrupações de igrejas a nível nacional, regional, continental. A sinodalidade se realiza, entre outras formas, no caminho comum de igrejas locais que compartilham o locus em uma província ou em uma região intra-nacional, ou em uma nação, ou em uma região internacional de um continente, ou em um continente inteiro. A comunhão entre diversas igrejas particulares potencializa em sua condição eclesial e sinodal de sujeitos (Sin 55) de uma evangelização inserida em uma região geocultural determinada. Esta configuração em níveis regionais e continentais requer o desenvolvimento de uma teologia sistemática das igrejas locais a partir da catolicidade do Povo de Deus (cf. IL 107,110).

3. A tradição: a configuração da Igreja Latino-americana e Caribenha

1. Neste grande marco se localiza a sinodalidade das igrejas da América Latina e do Caribe. A palavra portuguesa “caminhada” expressa o itinerário desta Igreja regional. A sinodalidade Latino-americana marcou o rosto singular de nossa Igreja e sua novidade histórica. Desde 1995 a Igreja da América Latina consolidou sua figura regional. Reúne vinte e duas conferências episcopais coordenadas pelo Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) que em 2015 completou 60 anos.

“O CELAM é um organismo eclesial de fraterna ajuda episcopal, cuja preocupação fundamental é colaborar para a evangelização do Continente… tem oferecido serviços muito importantes às Conferências Episcopais e às nossas Igrejas Particulares, entre os quais destacamos: as Conferências Gerais, os Encontros Regionais, os seminários de estudos em seus diversos organismos e instituições. O resultado de todo esse esforço é uma fraternidade sentida entre os bispos do continente e uma reflexão teológica e uma linguagem pastoral comum que favorece a comunhão e o intercâmbio entre as Igrejas” (DAp 183).”

2. Esta Igreja é a única comunidade de igrejas em escala continental que fez uma recepção situada, regional, colegial e criativa do Concílio Vaticano II. Este processo começou na II Conferência Episcopal de Medellín (1968); seguiu, à luz da exortação Evangelii nuntiandi de Paulo VI, na 3ª de Puebla (1979); prosseguiu no horizonte de uma nova evangelização proposta por João Paulo II na IV Assembleia celebrada em Santo Domingo (1992). Na V Conferência de Aparecida (2007) essa tradição foi aprofundada e impulsionou um movimento missionário continental permanente.
3. Desde 2013 vivemos um kairós singular porque o Bispo de Roma é filho de uma Igreja do sul, latino-americana e argentina. O Espírito Santo “sopra onde quer” (Jo 3,8) y soprou como “uma forte rajada de vento” (At 2,2). Desde 2012 emprego uma imagem criada pelo Cardeal Kasper: “sopra o vento do sul”. Francisco foi eleito quando as periferias do globo apareceram no coração da “urbe”. Representa a chegada do sul no coração da Igreja e a voz do sul global no mundo. A vitalidade sinodal que a Igreja é indissociável de sua experiência latino-americana.
De 1968 a 2018 a Igreja da América Latina completou seu ingresso inicial e progressivo na história mundial. Paulo VI foi o primeiro sucessos de Pedro que visiou a América Latina; chegou a Colômbia em 22 de agosto de 1968. Meio século depois, em 14 de outubro de 2018, Francisco, o primeiro Papa latino-americano, canonizou a Paulo VI. Um veio de Roma a Bogotá; o outro foi de Buenos Aires a Roma. O primeiro Papa latino-americano canonizou o primeiro Papa que veio a América Latina.

4. O Cardeal Jorge Bergoglio presidiu a Comissão de Redação e conduziu a elaboração sinodal e colegial do Documento Conclusivo, citado vinte e seis vezes em sua exortação Evangelii Gaudium. Ontem Bergoglio contribuiu com a mensagem de Aparecida; hoje Aparecida ajuda o ministério petrino de Francisco. O Papa toma linhas pastorais de Aparecida e as relança criativamente em seu programa missionário. Com ele a dinâmica sinodal de conversão pastoral impulsionada desde a periferia latino-americana faz seu aporte a reforma missionária da Igreja inteira. Em 1950 Yves Congar afirmava que muitas reformas provém das periferias e são confirmadas pelo centro.
5. A Igreja cresce no sul. Em 100 anos de inverteu a composição geo-cultural do catolicismo. Em 1910, 70% dos batizados católicos vivia no Norte (65% na Europa) e 30% no Sul (24% na América Latina). Em 2010 apenas 32% vivia no Norte (24% na Europa, 8% na América do Norte) e 68% nos continentes do sul: 39% na América Latina, 16% na África, 12% na Ásia e 1% na Oceania. Dois de cada três católicos vivemos no sul. No século CC o catolicismo deu um giro ao contrário. As nomeações dos Cardeais representam esta realidade poliédrica e periférica.
Depois de um primeiro milênio assinalado pelas igrejas orientais e um segundo dirigido pela igreja ocidental se vislumbra um terceiro revitalizado pelas igrejas do sul em uma catolicidade intercultural, presidida no amor pela sede de Roma e animada por uma dinâmica poli-cêntrica. A “terceira” igreja está no coração da casa de Deus. No passo para o século XXI e com o novo pontificado da Igreja católica volta a reconhecer o protagonismo das periferias e os periféricos. Isso aprofunda a crise do eurocentrismo eclesial e requer evitar a tentação do latino-americano-centrismo.
6. A Conferência de Aparecida se antecipou a imaginar novas formações eclesiais regionais. Por isso, antes de falar das Conferências Episcopais, se referiu a agrupações interdiocesanas.
“O Povo de Deus se constrói como uma comunhão de Igrejas particulares e, através delas, como um intercâmbio entre as culturas. Neste marco, os bispos e as Igrejas locais expressão sua solicitude por todas as Igrejas, especialmente pelas mais próximas, reunidas nas províncias eclesiásticas, as conferências regionais e outras formas de associação interdiocesana no interior de cada nação ou entre países de uma mesma Região ou Continente. Estas variadas formas de comunhão estimulam com vigor as ‘relações de irmandade entre as dioceses e as paróquias’ e fomentam ‘uma maior cooperação entre as igrejas irmãs” (DAp 182).

7. Com este pano de fundo eclesiológico, Aparecida chamou a colaborar com as igrejas da Amazônia:
“Criar consciência nas Américas sobre a importância da Amazônia para toda humanidade. Estabelecer, entre as igrejas locais de diversos países sul-americanos, que estão na bacia amazônica, uma pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas para criar um modelo de desenvolvimento que privilegie aos pobres e sirva ao bem comum” (DAp 475).

8. O Documento de Trabalho para o Sínodo aprofunda esta vinculação entre igrejas da região e as chama para avançar pelo caminho da tríplice conversão pastoral, ecológica e sinodal (IL 5). A conversão sinodal leva a assumir a região como um âmbito na qual Deus convoca o seu Povo.

“Além disso, podemos dizer que a Amazônia – ou outro espaço territorial indígena ou comunitário – não é somente um ubi (espaço geográfico), mas que também é um quid, quer dizer, um lugar de sentido para a fé ou a experiência de Deus na história. O território é um lugar teológico desde onde se vive a fé e é também uma fonte peculiar de revelação de Deus” (IL 19).

4. A figura: uma estrutura sinodal para a Igreja regional amazônica

1. A sinodalidade configura a Igreja como Povo de Deus em marcha e assembleia convocada pelo Senhor. O andar junto pelo caminho para realizar o projeto do Reino de Deus e evangelizar aos povos inclusive o estar junto em assembleias para celebrar ao Senhor ressuscitado e discernir o que o Espírito diz às Igrejas. A comunhão no Espírito Santo (II Cor, 13, 13) é princípio da vida sinodal. As assembleias, desde os sínodos diocesanos aos concílios ecumênicos, são momentos privilegiados de um processo de discernimento guiado pelo Espírito a serviço da Evangelização. A Igreja segue o ritmo da vida: movimento e pausa, caminho e reunião, sinodalidade e sínodo. A CTI cita palavras de Francisco na 70ª Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana.

“Caminhar juntos – ensina o Papa Fransico – é o caminho constitutivo da Igreja: a figura que nos permite interpretar a realidade com os olhos e o coração de Deus; a condição para seguir ao Senhor Jesus e ser servos da vida neste tempo ferido. Respiração e passo sinodal revelam o que somos e o dinamismo de comunhão que anima nossas decisões” (Sin 120).

2. A CTI não se limita a expor a sinodalidade na Igreja, mas expõe a sinodalidade da Igreja. Este neologismo não determina apenas um procedimento operativo nem uma engenharia institucional, mas a específica forma de viver e atuar do Povo de Deus que realiza e manifesta sua comunhão no caminhar juntos para o Reindo de Deus, reunir-se em assembleias e participar na missão. A Igreja é constitutivamente sinodal porque a sinodalidade expressa seu modus vivendi et operandi (Sin 6, 30, 43).
O parágrafo 70 distingue três sentidos inter-relacionados da sinodalidade. Antes disso, indica o estilo peculiar que qualifica o modo ordinário de viver e atuar da Igreja. Em segundo lugar, inclui as estruturas e os processos que expressam a comunhão sinodal a nível institucional. Por fim, integra a realização de acontecimentos ou atos, chamados assembleias – de um sínodo diocesano a um concílio ecumênico, nos quais a Igreja atua sinodalmente a nível local, regional e universal (Sin 70).
3. Francisco, na Constituição Episcopalis Communio de 18 de setembro de 2018, renovou a doutrina, o direito e a práxis do Sínodo dos Bispos. Compreende o Sínodo a partir da teologia conciliar sobre o Povo de Deus, a colegialidade e o primado; em uma Igreja toda sinodal; como um processo de escuta recíproca da voz do Espírito; através de três fases sucessivas: preparação/consulta, celebração/discernimento, atuação/recepção, pela participação de três sujeitos diferenciados e unidos: Povo de Deus, Colégio Episcopal, Sucessor de Pedro; escutando o sensus fidei fidelium pela consulta aos fiéis a partir dos organismos sinodais das igrejas locais.
4. O Sínodo amazônico considera a porção do Povo de Deus inculturado na Amazônia. O processo sinodal, aberto às interpelações de Deus, recorre três fases sucessivas: preparação; celebração; atuação. Por isso o Instrumentum Laboris diz: “Este processo tem que continuar durante e depois do Sínodo, como um elemento central da futura vida da Igreja” (IL 3).

5. Neste amplo horizonte que inclui o estilo, as estruturas, o processo e a assembleia sinodal se pode pensar uma estrutura episcopal – colegial e sinodal – permanente da Igreja regional amazônica, na linha com a proposta realizada no Instrumentum Laboris 129 f 3:

“Dadas as características próprias do território amazônico, se sugere considerar a necessidade de uma estrutura episcopal amazônica que leve a cabo a aplicação do Sínodo”.

Esta proposição não é e nem pode ser uma entre outras, como está no capítulo 4 da Parte III do Documento de Trabalho, mas uma linha macro-pastoral que deve sustentar outras propostas.

6. O atual processo sinodal mostra a conveniência de criar uma estrutura regional; a próxima assembleia do Sínodo pode discernir a melhor figura desta sinodalidade amazônica. A experiência histórica, a eclesiologia sinodal e o direito canônico apresentam duas figuras principais: CONFERÊNCIA E CONSELHO. Ainda existem outras como associação, federação e comissão.

5 A. Uma conferência episcopal regional?
“As Conferências Episcopais no âmbito de um país ou de uma região são uma criação recente nascida no contexto da afirmação dos Estados nacionais e como tais foram valorizados pelo Concílio Vaticano II (LG 23, SC 36-38) na perspectiva da eclesiologia de comunhão. Manifestando a colegialidade episcopal, tem como fim principal a cooperação entre os bispos para o bem comum das Igrejas que lhes foram confiadas, a serviço da missão nas respectivas nacionais. Sua relevância eclesiológica foi reivindicada pelo Papa Francisco, que convidou a estudar suas atribuições também no âmbito doutrinal (EG 32). Este aprofundamento deve se realizar refletindo sobre a natureza eclesiológica das Conferências Episcopais e a sua atuação em uma vida sinodal mais articulada a nível regional. Nesta perspectiva é necessário prestar atenção às experiências que amadureceram nestes últimos decênios, assim como também às tradições, a teologia e ao direito das Igrejas orientais (OE 7)” (Sin 89).
Para o Código de Direito Canônico, essas conferências podem ocorrer em uma nação ou região.
“A Conferência Episcopal, instituição de caráter permanente, é a assembleia de bispos de uma nação ou território determinado, que exercem unidos algumas funções pastorais a respeito dos fiéis de seu território, para promover conforme a norma de direito o maior bem que a Igreja proporciona aos homens, sobretudo mediante formas e modos de apostolado convenientemente acomodados às peculiares circunstâncias de tempo e de lugar” (CIC – 447).
A Sé Apostólica pode erigir conferências em regiões de dimensão maior ou menor a uma nação.
“Como regra geral, a Conferência Episcopal compreende os prelados de todas as Igrejas particulares de uma mesma nação (CIC – 448§1). Mas sim, a juízo da Sé Apostólica, tendo escutado aos bispos diocesanos interessados, assim o aconselham nas circunstancias das pessoas ou das coisas, pode erigir-se uma Conferência Episcopal para um território de extensão menor ou maior, de modo que somente compreenda os bispos de algumas Igrejas Particulares existentes em um determinado território, ou bem aos prelados das Igrejas Particulares de distintas nações; correspondente a mesma Sede Apostólica dar normas peculiares para cada uma dessas Conferências” (CIC 2).

Uma Conferência episcopal regional pode promover processos de cooperação colegial e sinodal entre Igrejas locais de 9 países e inculturadas no grande território sociocultural amazônico.

6 B – Um Conselho episcopal regional?
“As mesmas razões que presidiram o nascimento das Conferências Episcopais a nível nacional contribuíram para a criação de Conselhos a nível macro-regional e continental de diversas Conferências Episcopais e, no caso das Igrejas católicas de rito oriental, a criação da Assembleia dos hierarcas das Igrejas sui iuris e do Conselho dos Patriarcas das Igrejas católicas do Oriente. Estas estruturas, prestando atenção ao desafio da globalização, favorecem a inculturação do Evangelho nos diversos contextos, e contribuem para manifestar ‘a beleza deste rosto multiforme da Igreja’, em sua unidade católica (NMI 40). Seu significado eclesiológico e seu estatuto canônico se aprofundam ulteriormente, atendendo ao fato de que elas podem promover processos de participação sinodal em ‘cada grande território socio-cultural’ (AG 22), a partir das específicas condições de vida e de cultura que conotam as Igrejas particulares que formam parte destas estruturas” (Sin 93).
Um conselho episcopal regional pode promover processos de participação e linhas evangelizadoras comuns entre as Igrejas particulares dos 9 países do grande território sociocultural amazônico.
7. Duas instituições episcopais? Diante da novidade que significaria combinar o Conselho Episcopal Latino-americano e um Conselho Episcopal Amazônico, assinalo que existem 2 antecedentes.
1) O primeir da América Latina: a compatibilidade existente entre a SEDAC – Secretaria Episcopal da América Central, criada há 77 anos – e o CELAM (1955).
2) O segundo caso, europeu. Desde 1980, existem duas figuras simultâneas com objetivos e escopo diferentes: o Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE, 1971, Sankt Gallen) e a Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (COMECE, 1980, Bruxelas).

8. Pessoalmente, prefiro um Conselho, mas não me corresponde eleger uma forma.
*Agrego que esta reflexão se limitou a estruturas episcopais colegiais que podem ser causas para uma sinodalidade ampla com outras instituições do Povo de Deus amazônico. De fato, a REPAM surgiu da convergência entre CELAM, CLAR, CARITAS, etc.

9. Além da modalidade institucional, uma nova estrutura de comunhão e discernimento colegial e sinodal deve estar aberta a novidade permanente do Espírito.

“O discernimento comunitário implica a escuta atenta e valente dos ‘gemidos do Espírito (Rom 8, 26) que abrem caminho através do grito, explícito ou também mudo, que brota do Povo de Deus: escuta de Deus até escutar com Ele o clamor do Povo. Escuta do Povo, até respirar nele a vontade de Deus que nos chama. Os discípulos de Cristo devem ser ‘contemplativos da Palavra e também contemplativos do Povo” (EG 154) (Sin 114).

 

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