Guarani-KaiowáParís 11-12-2015 (REPAM).- Enquanto na COP 21 em Paris os negociadores dos países buscam acertos possíveis para fechar um acordo mínimo em relação ao que se deve fazer para enfrentar a mudança climática provocada por ações humanas, recebo, profundamente indignado, notícias sobre o que está acontecendo em meu país, o Brasil.

Em primeiro lugar, estou indignado em relação à vergonhosa retomada do etnocídio dos povos indígenas. No Moto Grosso do Sul, torna-se mais agressiva a perseguição ao CIMI, tentando, como se faz desde o “encobrimento” do século XVI, negar que os povos indígenas sejam capazes de ter consciência e de lutar por seus direitos. Acusa-se o CIMI como se fosse autor intelectual das iniciativas dos Guarani-Kaiwoá pela recuperação de seus territórios originários. E tenta-se desviar ainda mais o peso do crime de etnocício de que são vítimas estes povos ao acusar o CIMI de estar atuando em favor de interesses internacionais.

A ação do Ministério Público do Pará em relação ao etnocídio praticado pela empresa Norte Energia e pelo Governo Federal na área da construção da hidrelétrica de Belo Monte, confirma a minha indignação. Afinal, o que se pode esperar das medidas eventualmente aprovadas pelo governo brasileiro em Paris quando se percebe que a prática política em relação aos povos indígenas chega ao extremo de negar o direito de identidade étnica dos povos indígenas? E mais, quando esta negação é praticada em favor de empresas que, de diferentes modos, agravam a mudança climática e a crise social que afetam o Planeta, já que o agronegócio é fonte de emissão de gases de efeito estufa, de crise hídrica e de contaminação do solo e subsolo, e as hidrelétricas igualmente emitem grande quantidade de metano e dióxido de carbono?

Só quem é cego e surdo continua acreditando que o drama ambiental e social do mundo em que vivemos será enfrentado positivamente pelas empresas e governos promotores do sistema econômico dominante. Mesmo se fosse possível reduzir os gases que têm a ver com o aquecimento que provoca mudança climática sem transformações profundas deste sistema, a manutenção do princípio absoluto do crescimento econômico para gerar riqueza cada vez mais concentrada em poucos grandes grupos de capital financeiro tornará impossível a vida na Terra. Já ultrapassamos todos os limites. Ou transformamos estruturalmente esse sistema e mudamos de direção, procurando produzir e consumir só o que é realmente necessário para uma vida decente e digna, ou a Terra nos dispensará dentro de não muito tempo.

Creio que os limites já claramente anunciados do acordo de Paris, reconhecendo, contudo, ser positivo que seja assumido, deixam claro que deveremos continuar a luta por mudanças profundas de caráter civilizatório. Não será possível darmos grandes saltos, mesmo se desejáveis, mas nosso compromisso deverá ser o do aprofundamento de nossa capacidade de mobilização em favor dos direitos de todos os povos, de todos os seres vivos e da Mãe Terra. De imediato, nossa solidariedade militante em defesa dos direitos originários e inalienáveis dos povos indígenas de nosso país, e em defesa das entidades que, como o CIMI, se somam e ampliam as iniciativas destes povos pelo direito de existir com suas identidades culturais e com seus territórios.

Ivo Poletto, do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, participante da delegação da Caritas Internationalis na COP 21 como representante da REPAM.

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