Com preocupação e indignação, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização indígena de defesa dos direitos e interesses dos povos indígenas de Roraima recebeu a notícia do ataque por garimpeiros de dois yanomami, com mortes, do grupo isolado Moxihatetea que vive na Serra da Estrutura, na Terra Indígena Yanomami (TI Y), Roraima, de acordo com a CARTA/HAY N° 051 /2018, enviada ao Presidente da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Ministério Público Federal (MPF) e Superintendência da Polícia Federal de Roraima, denunciando o caso.

Conforme a Carta, os homicídios ocorreram no mês de maio em conflito que se originou quando um garimpeiro estava roubando a roça dos Moxihatétéa, segundo relato coletado pela assessoria indígena do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-Y). “A equipe de saúde do DSEI Y teve conhecimento do caso durante uma reunião realizada em 18 de julho na região do Alto Catrimani, Terra Indígena Yanomami Roraima que fica próxima à área onde vivem os isolados e que está invadida por centenas de garimpeiros. Na ocasião, jovens yanomami relataram que ouviram dos próprios garimpeiros sobre o conflito e as mortes, e repassaram para a equipe de saúde”, registra a Carta.

Segundo a Hutukara Associação Yanomami (HAY) o grupo isolado possui aproximadamente 80 pessoas, estão localizados na Serra da Estrutura e acompanhados pela FUNAI. O grupo corre graves riscos de sobrevivência, pois na região habitada pelo grupo isolado há atividades garimpeiras a menos de 5 km da casa coletiva, segundo a Carta. A base de proteção, criada em 2012, está abandonada desde 2015, quando garimpeiros passaram a controlar o local, utilizando tanto da estrutura (prédio) quanto da pista de pouso, que serve de apoio às atividades ilícitas.

A Carta registra ainda que, os Yanomami da região do Alto Catrimani também estão solicitando que as autoridades brasileiras retirem imediatamente os garimpeiros pois “eles estão matando os Moxihatetea, também eles estão poluindo o nosso rio e prejudicando a nossa saúde, eles estão deixando grande impacto ambiental no nosso território, ” segundo uma liderança da região. (CARTA/HAY N° 051 /2018).

Diante dessa grave denúncia, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), que há décadas vem acompanhando o descaso e a omissão das autoridades brasileiras em relação ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami e que se alastra a outras terras indígenas do Estado, como a Terra Indígena Boqueirão, na região do Tabaio, região de Amajari e bem próximo, a capital roraimense, Boa Vista, reforça a denúncia feita na 47ª Assembleia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, realizada no mês de março desse ano, no Centro Regional do Lago Caracaranã, onde, mais de 3 mil indígenas manifestaram repúdio ao garimpo ilegal na TI Yanomami.     

– Garimpo só traz morte e destruição! Queremos a rejeição do PL 1610/96 de autoria do Senador Romero Jucá. Esse projeto é ruim para os povos indígenas, pois não estabelece salvaguardas e não garante o direito a consulta aos povos indígenas. Nossa assembleia denuncia que os garimpos tem trazido à poluição dos rios, a degradação do meio ambiente, contaminação por mercúrio, e afeta a saúde indígena. Os efeitos vão além da TI Yanomami, uma vez que garimpeiros entram pela terra indígena Boqueirão, e a contaminação por mercúrio que ocorrem ao rio Uraricoera atinge outras comunidades indígenas que utilizam das águas do rio para seu consumo. (Carta da 47ª. Assembleia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, Centro Regional Lago Caracaranã, Raposa, TI Raposa Serra do Sol–RR, 14 de Março de 2018)  

Neste fato recente, o CIR, organização indígena de atuação nacional e internacional, pede providências urgentes às autoridades brasileiras na apuração e punição desse caso do povo Yanomami do grupo isolado Moxihatétéa.  

Chega de genocídio dos povos originários desse país, chega de genocídio do povo indígena Yanomami. Basta de garimpo ilegal em nossas terras sagradas, poluindo, degradando e matando, nossos rios, florestas, biodiversidade e, principalmente, matando o povo indígena.

Sobre a epidemia de sarampo

 

Da mesma forma, o CIR, reforça o pedido de atenção especial à saúde do povo Yanomami da Venezuela que sofrem o surto de sarampo, conforme Carta n. 0049/2018 HAY, de 18 de julho de 2018, onde informa sobre a epidemia de Sarampo que atinge os Sanöma no Polo Base Awaris.

 

Há meses que organizações indígenas da Venezuela, como Wataniba e OEPA vem alertando sobre o caso, e desta vez, a Hutukara Associação Yanomami (HAY). Um caso que requer atenção das autoridades públicas, urgentemente, para que não ocorra uma catástrofe com o povo Yanomami da Venezuela e nem do Brasil.

 

O CIR, também pede apuração da causa de contaminação que, pelo histórico de invasão de garimpeiros a Terra Indígena  Yanomami, é possível que a contaminação não seja somente pela grave crise do país venezuelano, mas pelo ataque de garimpeiros na região, conforme já denunciado pelo líder Davi Kapenawa Yanomami.

agosto 7, 2018

Exterminar índios para ocupar seus territórios é uma tradição brasileira. Começou no ano de 1500, quando o conquistador português desembarcou da caravela e avistou no litoral da Bahia povos nativos que habitavam há séculos as terras anunciadas como recém-descobertas. Apesar de ser consagrado como herói por ter percorrido epicamente longas extensões do território brasileiro, o bandeirante foi, antes de tudo, um genocida. Entrava nos sertões à frente de uma comitiva armada e buscava populações indígenas. Ao encontrá-las, destruía aldeias, trucidava homens, mulheres e crianças indistintamente e conduzia os sobreviventes – acorrentados – até os engenhos de cana-de-açúcar onde os vendia como escravos. O extermínio dos povos originários foi amparado na Doutrina da Guerra Justa, utilizada pelo colonizador para banalizar a morte dos pagãos resistentes à chegada do progresso. Pagãos, infiéis, gentios bárbaros, selvagens, tapuios, mamelucos, negros da terra, caboclos, caiçaras ou bugres eram pejorativamente chamados os povos que não compartilhavam com o colonizador religião, idioma e costumes e chegada do progresso significava a ocupação de suas terras pelo estrangeiro invasor. A História do Brasil precisa ser revista para se resgatar a verdade negligenciada nos livros didáticos, omissos em relação à política genocida praticada há 500 anos pelo Estado Brasileiro contra povos originários. Índios avistados nos semáforos das cidades brasileiras, pedindo esmolas para garantir a sobrevivência, provam que a tradição continua, porém com versão atualizada. Chegada do progresso significa, hoje, expulsar populações das terras onde vivem desde tempos imemoriais, derrubar a floresta e implantar nelas atividades altamente lucrativas ao custo da destruição do meio ambiente e da desestruturação social dos povos nativos. Quem lucra com a mineração à base de mercúrio que contamina rios e lagos onde os índios pescam e bebem; com o comércio clandestino de madeira e carvão que reduz florestas inteiras a montes de toras e brasas; com a plantação extensiva de milho e soja que abusa dos agrotóxicos e torna o Brasil o maior consumidor de venenos do planeta; com hotéis de luxo construídos em praias de beleza paradisíaca à custa da expulsão de comunidades tradicionais que habitavam a região há séculos, e com os projetos de usinas hidrelétricas executados sem respeitar estudos de impacto ambiental e social ?
http://www.mpf.mp.br/am/sala-de-imprensa/noticias-am/decisao-da-justica-reconhece-violacoes-contra-povo-waimiri-atroari-na-abertura-da-br-174
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/04/19/interna_politica,373440/documento-que-registra-exterminio-de-indios-e-resgatado-apos-decadas-desaparecido.shtml
http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-09-25/construcao-de-rodovias-no-governo-militar-matou-cerca-de-8-mil-indios.html
http://vladimirherzog.org/minidocumentario-revela-que-ditadura-criou-campos-de-concentracao-indigenas/

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